Porque esse deveria ser meu nome.
Sempre.
Sempre.
Sou rocha, não me movo, e o mar bate em mim o tempo todo.
Quero ir também, mas não consigo.
Jogo uns cascalhos,finjo que vou, e as pessoas acreditam.
Mas eu não vou, eu nunca fui, e às vezes duvido que algum dia consiga ir.
Porque sou rocha, erigiram-me aqui e aqui estou e tenho muito medo, e tenho tanto medo, meu Deus, quanto medo aqui dentro, e já sou meio medo e meio pedra, dura, tudo duro, tudo tão frio.
E dentro de mim às vezes desejo que fosse oco, para poder deixar-me mais leve, mas não sou passagem, e sim acumulação, e está tudo acumulado, aqui dentro, olha, tudo tão acumulado e amalgamado, mesmo aquilo fragmentado está tudo aqui, nas caixinhas, e não vou porque não posso, porque não tenho raízes, mas sou tão pesada.
Aqui, entre toda essa massa pétrea que um dia achou que eu pertencia aqui, e eu acreditei, e deixei, e fiquei.
E agora não tem EU que não fique, porque fiquei e fico, e resto.
Por isso os peixes passam por mim e riem.
Por isso as ondas passam e avançam sobre mim.
Por isso as algas aproveitam e se prendem em minhas pernas, e por isso eu grito e o grito que ninguém ouve, vira pedra também, ele também.
Que Midas irônico esse, que tudo toca e tudo gruda, e amalgama, e fica dentro, bem dentro, bem fundo, e não larga, e craca, e petrifica.
E esse é meu segredo mais íntimo.
E, é isso que me dói tanto e eu nunca consegui dizer.
E, eu ia pedir um abraço.
Mas podem ir embora, agora.
Vão e não olhem pra trás.
Porque de estátua, basto eu.