Conhecer-te.
Nunca foi a ti que quis conhecer, mas tão somente a mim.
Conhecer-me a partir de ti, sem te ver, tocar ou escutar.
Sem saber, sentia que tocar-te em pensamentos equivaleria a ter-me disposta a ouvir o que eu própria teria para dizer, mesmo que nos silêncios profundos trocados entre a noite e o dia.
O passar do tempo trouxe a surpresa da revelação desta que sou agora.
Por ti, em ti, contigo, eu conheci aquela que sou hoje. Ou em que me transformei.
Atingi a performance que pretendia.
Sem mover um músculo que não apenas o cerrar de pálpebras cansadas do labirinto do pensamento.
Foi a imagem que fiz de ti que me envolveu. Cativou e seduziu.
Foi a imagem que fiz de ti que me envolveu. Cativou e seduziu.
Não o olhar real que me era desconhecido, mas apenas aquele que imaginava pelo som das palavras lidas e relidas vezes sem fim.
Não o sorriso que imagino diariamente mas aquele que o meu pensamento desenhou como sendo o mais cativante e caloroso alguma vez imaginado.
Não foste tu quem me cativou, fui eu.
Se és como te idealizo? És o que és. O que plausivelmente deves ser.
Mas é nesse sentido que preenches o que pintei a aguarela na tela que ocupa uma parede da minha vida.
Ès, o que queria que tu fosses, real ou imaginariamente.
Na verdade, não me importa a verdadeira imagem de ti.
Mas a que crio baseada no que a minha vontade dita.
Conhecê-la em nada altera o que sinto.
Ou a falta do sentir que eu desejo.
Tu és o que eu não desejava que fosses, somente porque me inquietas.
Tu és o que eu não desejava que fosses, somente porque me inquietas.
Não gosto de sentir esta inquietude porque não me permite o controle habitual do ser.
Nem das palavras, dos sons, dos gestos, dos risos, das lágrimas.
Gosto de gerir as minhas emoções, mantendo-as presas nas algemas cuja chave atiro para debaixo de um qualquer livro.
Enerva-me saber que pegas nessa chave e as libertas para que, descontroladas, esvoacem por aí.
Soltas, perdidas.
Fazendo com que eu mesma me perca nos meandros de espaços que desconheço.
Saindo de mim, dessa que conheci, ao não querer conhecer-te.
Que digo?
Que digo?
Palavras derramam-se sem se saber como nem porquê.
Sentidos revolucionam-se sem que os consiga controlar.
Deixo-os à deriva?
